domingo, 25 de julho de 2010

COMENTÁRIO DA CARTA AOS ROMANOS

Martinho Lutero

‘Paulo, servo de Jesus Cristo'

(Rm 1:1)

A idéia principal desta carta é derrubar, desfazer e destruir toda sabedoria e justiça da carne – isto é, da importância que tem aos olhos humanos , não importando a sinceridade e profundidade com que sejam praticadas. Além disso, a carta visa igualmente, implantar, estabelecer e dimensionar a realidade do pecado, não importando se temos consciência de sua existência ou não.

É por isso que Agostinho diz no capítulo sete do livro “Espírito e a Letra”: ‘O apóstolo Paulo discute com os orgulhosos e arrogantes, contra os presunçosos quanto às suas obras, etc; ademais na Carta aos Romanos, este é quase o único tema abordado e com tanta persistência e complexidade a ponto de cansar a atenção do leitor. Contudo é um cansaço útil e salutar”. Dentre os judeus e gentios sempre existiu quem acreditasse que virtude e conhecimento, não externos mas vinda do coração eram suficientes.

Muitos filósofos também pensavam assim. Os mais ilustres e pouco conhecidos, com exceção de Sócrates, viviam moralmente nesta prática. Todavia, ainda que fossem movido por um sentimento real de busca pela virtude e sabedoria e não buscassem a sua própria glória, não conseguiram evitar de se julgarem justos e bons em seus corações. Sobre estes o apóstolo diz: ‘Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos’ (Rm 1:22).

Nesta carta porém, é justamente o oposto que será ensinado. Pois na igreja não se deve apenas ensinar que nossa justiça e sabedoria, que de nada valem, não devem ser tomadas para nossa própria glória nem tampouco estimada pelos outros; mas devemos sim, nos entristecer pelo fato delas estarem destruindo e desfazendo nosso sentimento interior complacente (ainda que, para o Evangelho ‘a lâmpada acesa não deve ser posta debaixo do alqueire, mas o velador para que ilumine a todos que estão na casa’(Mt 5:15) e que ‘a cidade edificada sobre um monte não pode ser escondida’ (Mt 5:14).). Pois se desprezarmos estas coisas, será bem mais fácil não dar atenção ao julgamento ou elogio dos outros.

Quando Cristo diz pelo profeta Jeremias: ‘para arrancares e para derribares, e para destruíres, e para arruinares’(Jr 1:10), refere-se a tudo o que há em nós, o que nos agrada porque vem de nós mesmos e pertence a nós. E continuando diz: ‘e também para edificares e plantares’, implica em tudo o que está fora de nós e que se encontra em Cristo. Este é também o significado da figura de linguagem de Daniel em relação a pedra que ‘feriu a imagem’ (Dn 2:34). Pois Deus não nos quer salvar através de nós mesmos, mas através de uma justiça alheia; não se origina em nós , mas vem de fora, que não se ergue da terra mas vem do céu. Por isso, devemos vir a conhecer esta justiça que é completamente externa à nós. Eis porque a nossa própria justiça deve ser arrancada, conforme o Salmo 45, onde lemos: ‘Esquece-te do teu povo e da casa do teu pai’ (Sl 45:10) – assim como foi dito a Abraão deixar seu país. E em Cantares de Salomão lemos: ‘Vem do Líbano, minha noiva, e serás coroada’ (Can 4:8). Também o êxodo do povo de Israel foi por muito tempo interpretado como significando a transição do vício para a virtude. Mas deveria ser interpretado como o caminho da virtude para a graça de Cristo, pois quanto menos se percebe as virtudes como tais, tanto mais se tornam faltas maiores e piores e, assim, subjugam muito mais o afeto aos outros bens. Da mesma forma o lado direito do Jordão era mais temível do que o lado esquerdo.

Agora, porem, Cristo deseja que todos os nossos sentimentos sejam sóbrios de tal forma que não venhamos a temer ficar confusos por causa de nossas faltas, nem nos deleitemos nos louvores e alegria vãs por causa de nossa virtude. Além disso, deseja que não nos gloriemos diante dos homens pela justiça de fora que, vinda de Cristo, está em nós, nem tampouco nos entristecemos por causa dos sofrimentos e males que nos sobrevém pela sua busca.

Ademais, um cristão verdadeiro deve está tão despojado de tudo aquilo que chama de seu que nem honra nem desonra seja capaz de afetá-lo, pois sabe que a honra que lhe é dada é de Cristo, a quem pertence à justiça e os dons que nele brilham. Ao mesmo tempo, qualquer desonra que lhe é infligida atinge tanto a ele como a Cristo. Mas à parte da graça especial, se requer muita prática para que se chegue a perfeição. E mesmo que por seus dons naturais e espirituais um homem seja sábio, justo e bom aos lhos dos homens, não o é assim perante Deus, principalmente se ele se considera assim.

Portanto devemos nos manter humildes em relação a tudo isso, como se ainda estivéssemos nus, procurando pela misericórdia de Deus para que nos reconheça como justos e sábios. Isso Deus fará ao que for humilde, que não se antecipa à ação divina pela sua própria justificação e pela excessiva estima de si mesmo – como lemos em 1 Coríntios 4:3-5: ‘Eu não julgo a mim mesmo, mas quem me julga é o Senhor; portanto nada julgueis antes do tempo...’.

Certamente existem muitos que, como os judeus e os heréticos, desistem de todos os bens da mão esquerda, os bens temporais, pela busca desregrada e voluntária de Deus, mas poucos são os que para obter a justiça de Cristo tem em conta de nada os bens da mão direita, os espirituais e as obras de justiça. Com certeza os judeus e os heréticos são incapazes de assim fazer. Contudo, sem isso ninguém pode ser salvo. Pois todos esperamos e desejamos que nossas realizações sejam aceitas e recompensadas por Deus. Mas permanece como verdade eterna que: ‘isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus que se compadece’ (Rm 9:16).

Mas voltando à carta, não creio que seus destinatários, que o apóstolo diz ‘chamados santos e amados de Deus’, fossem de tal sorte que houvesse a necessidade do apóstolo intervir em suas disputas e daí concluir que todos eram pecadores; pois se eram cristãos, saberiam disso pela sua fé. Creio, porém, que tomou a iniciativa de escrever aos crentes de Roma para disponibilizar o testemunho de um grande apóstolo à fé deles e para ensinar quando disputassem com os judeus e gentios de Roma descrentes que se gloriavam na carne contra a sabedoria humilde dos crentes, pois estes crentes não tinham escolha senão viver entre eles e assim envolverem-se em contradições em tudo o que ouviam e falavam. Neste sentido, ele escreve no quinto capítulo da segunda carta aos Coríntios: ‘Porque não nos recomendamos outra vez a vós; mas damos ocasião de vos gloriardes de nós, para que tenhais que responder aos se gloriam na aparência, e não no coração’ (2 Cor 5:12).

Este é o dever de um ministro de Deus prudente, exercer seu ministério com honra e fazer com que este seja respeitado por aqueles que estão sob seu encargo. Além disso, é dever do ministro fiel não exceder em seus poderes e não abusar de seu ofício de forma orgulhosa, mas sim, administrá-lo para o bem dos outros. Deve ser um ‘servo fiel e prudente’ (Mt 24:45). Se não for prudente se tornará inútil, incapaz e indigno de respeito. Pessoas que numa humildade imprudente praticam a familiaridade com quase todo mundo e se colocam no mesmo nível que aqueles sob seu encargo, não podem senão perder a verdadeira autoridade da liderança, pois sua familiaridade produz desprezo. Pecam gravemente os que assim agem! Pois aquilo que pertence a Deus e é posto à administração deles, e o que devem fazer para serem honrados, deixam que seja desprezado. Se não for fiel, se torna um tirano que quer aterrorizar pelo seu poder. Ao invés de cuidar para que sua alta posição seja útil para os outros, tais pessoas querem ser temidas. Contudo, conforme diz o apóstolo, a autoridade de seu ofício é dada não para destruir e sim para edificar.

Se tivermos que especificar tais faltas, diríamos que são indulgência e severidade. Da primeira lemos em Zacarias 11:17: ‘Ai do pastore inútil que abandona o rebanho’.

E da segunda Ezequiel diz: ‘Dominas sobre elas com rigor e dureza’ (Zc 34:4).

Estas são as duas faltas principais das quais todas as outras faltas do clérigos se erguem. E não nos admira, pois a indulgência está enraizada na concupiscência e a severidade na ira. Estas são as fontes de todo mal como bem conhecemos. Portanto, é muito perigoso exercer algum ofício a menos que estas duas feras estejam domadas, pois quanto mais autoridade tiver, tanto mais males causaram.

No prólogo ou preâmbulo desta carta, o apóstolo se apresenta como um eficiente exemplo de alguém que se opõe a estes dois monstros. Pois primeiro, para não ser desprezado como incapaz e brando, ele engrandece seu ministério com alta honra. Em segundo lugar, para não ser considerado um tirano, se cerca de afeição aos que lhes são subordinados demonstrando boa vontade para com eles.

Com uma mistura de temor e amor ele os prepara para a recepção do evangelho e da graça de Deus. Seguindo o exemplo do apóstolo, todos os clérigos da Igreja (como um animal que tem o casco fendido e é puro) deve antes fazer distinção entre si mesmo e seu ministério, isto é, entre ‘a forma de Deus’ e ‘a forma de servo’ e se considerar como o mais baixo de todos, equilibrando seu ministério entre temor e amor visando totalmente o bem estar e proveito do povo. Além disso, deve saber que pelo fato de todo ofício ser dado unicamente para o bem estar e proveito do povo, deve sempre querer desistir dele se achar que não pode administrá-lo para benefício de seu povo ou quando o bloqueia por causa de si mesmo. De fato, é nisto que consiste todo o pecado dos clérigos: privam o ministério de seus frutos por uma ou ambas destas falhas.

Por isso o apóstolo diz: ‘servo de Jesus Cristo’. Nesta palavra tanto há majestade como humildade: há humildade na medida em que não se considera senhor e criador à maneira dos tiranos orgulhosos que usam de sua autoridade de tal maneira que parecem não pensar em nada mais além da própria autoridade, como se a produzissem e não a tivessem recebido de outro. Não encontram, portanto, os frutos de sua autoridade, mas simplesmente desfrutam do próprio poder em si mesmo. E há majestade na medida em que se alegra em servir um Senhor como este. Pois se é perigos não honrar e saudar um servo do imperador, que dirá dos que não honram e saúdam os servos de Deus?

A frase ‘servo de Jesus Cristo’ é, portanto, uma palavra grande e terrível. Creio que a palavra ‘servo’ aqui é um termo usado para indicar um ofício e uma dignidade; não se refere ao serviço e homenagem do próprio Paulo à Deus. Em outras palavras, creio que o apóstolo não quer chamar a atenção para seus trabalhos pessoais pelos quais serve a Deus, pois isso significaria arrogância. Pois quem seria tão corajoso em dizer ‘Sou servo de Deus!’, tendo em vista o fato de que este não pode saber se fez tudo o que Deus requer dele? Por isso Paulo diz em 1 Coríntios 4:3: ‘Eu não julgo a mim mesmo’. Somente a Deus cabe julgar e decidir se alguém é servo ou inimigo. Assim, Paulo chama a si mesmo de servo porque quer confessar que recebeu de Deus o ofício de cuidar dos outros, como se dissesse: Eu prego o Evangelho e ensino as igrejas, eu batizo e faço outras obras que pertencem apenas a Deus. Não faço isso como um senhor sobre vocês mas como um servo de Deus comissionado a ministrar á vocês. Sou um servo em favor de vocês e meu ‘serviço’ não é outro senão minhas obrigações para com você. Sua preocupação final é Deus.

Não é o mesmo ‘serviço’ que se espera que todos nós rendamos a Deus. Em resumo: em sentido moral e tropológico todo mudo é servo de Deus por e para si mesmo, mas em sentido alegórico, alguém é servo de Deus para outros e sobre outros, para o cuidado de outros. O primeiro significa uma dignidade sublime, o último uma forma completa de submissão e humildade. Além disso, em relação a este último, pode-se ter certeza e gloriar-se em seu trabalho, mas não em relação ao outro. Da mesma forma, o servo de Deus em sentido alegórico beneficia e serve a outros, enquanto o outro ‘servo’ beneficia-se a si mesmo apenas. Um é um dom especial para poucos, mas o outro deve ser comum à todos. Um deve exercer tarefas definidas e claramente delineadas, enquanto o outro deve fazer tudo o que puder. Um pode existir sem a graça, mas o outro não pode existir senão pela graça. Um é mais digno enquanto o outro é mais completo. Um é manifestado aos homens na glória, mas o outro não é suficientemente conhecido se quer por si mesmo, como já foi dito acima.

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